O mundo perfeito
Esses dias estive olhando meus
arquivos do notebook e acabei me deparando com uma pasta de fotos que foi
criada em 2003 e é alimentada até os dias de hoje. Enquanto estava lá olhando
com bastante nostalgia e empolgação as imagens de mais de 15 anos atrás, acabei
constatando algo que reacendeu uma reflexão que já tenho feito há algum tempo:
nunca a opinião dos outros valeu tanto para a maioria de nós como vale hoje em
dia.
E a opinião alheia pode ser
resumida à duas palavras que nos levarão para um mundo particular onde, hoje,
passamos boa (quando não a maior) parte do tempo: as redes sociais.
Se em 2003 as fotos, já
digitais, eram tiradas mais espontaneamente, hoje há um baita critério de
seleção para se utilizar ou não uma foto. É um filtro que tem que ser aplicado,
uma clareadinha nos dentes, mil tentativas de retratar a mesma imagem pra
conseguir um melhor ângulo, uma melhor luz e tudo para que tenhamos o maior
número de curtidas e comentários possível. Nós nunca precisamos tanto da famosa
massagem no ego como precisamos hoje. E sim, hoje a quantidade prevalece sobre
a qualidade, afinal vale muito mais uma foto sua com 128 curtidas de pessoas
estranhas do que a interação de somente 5 ou 6 mais próximos.
Quem diz que não liga pra
opinião alheia e está nas redes sociais automaticamente está se contradizendo,
pois ninguém ali posta algo para si mesmo. Se assim fosse, era só encher os
porta retratos de casa e escrever os próprios textos e pensamentos em um
caderno.
Hoje nos preocupamos demais em
mostrar não a vida que realmente temos, mas sim a que queremos que os outros
pensem que temos. Afinal, nunca a grama do vizinho pareceu ser tão verde como é
hoje.
Pois bem, eu vou contar
algumas coisas que muita gente sabe mas às vezes acaba se esquecendo.
A minha foto é a minha melhor
foto. O ângulo junto com a luz, depois de umas 30 tentativas, fizeram eu
parecer uns anos mais jovem e uns muitos quilos mais magro do que realmente eu
sou.
Os meus dentes, que ali são
tão brancos devido a um aplicativo mágico, estão careados, tortos e amarelados,
talvez pelo consumo excessivo de café.
A foto que postei todo sorridente
ao lado dos meus colegas de trabalho para mostrar o quanto amo meu emprego é
uma baita fachada, pois basta eles virarem as costas para eu falar mal de cada
um deles. Aliás, eu odeio meu trabalho e venho pra cá todos os dias já sonhando
com a hora de ir embora.
Aquele prato lindo num
restaurante caríssimo que postei outro dia foi bonito, né? Mas sabia que custou
o olho da cara e até hoje quando lembro o quanto gastei naquela noite, sinto
vontade de chorar.
Falando nisso, tenho alguns
empréstimos bancários, estou mergulhado no cheque especial, nunca sei como
fazer para pagar a fatura do cartão de crédito e tenho uma quantidade razoável
de boletos atrasados. Porém tudo bem, pois o que vale é postar as fotos da
viagem que fiz pro exterior e ostentar o meu novo telefone que custou mais do
que o meu salário integral.
Ah, não posso esquecer também
de mencionar a chuva de declarações de amor que rola entre casais. Elas muitas
vezes são movidas como um pedido de desculpas por alguma cagada ou simplesmente
fruto de consciência pesada. Pois é, sabe aquele casal perfeito que você vê nas
imagens? Ele não existe. O marido trai a mulher e a trata feito empregada doméstica. Mas quer saber? Tudo bem. Afinal nada disso
foi postado e, ali no mundo virtual, aos olhos do mundo, eles são um casal
feliz e até invejado.
É foda, mas hoje vivemos com
um senso de urgência de mostrar uma vida perfeita que não existe e nunca
existirá. Corremos atrás de algo que não é real e por muitas vezes esquecemos
de viver o que de fato interessa, tudo a troco de likes.
Afinal, que atire a primeira
pedra quem, mesmo morrendo de fome, parou tudo o que estava fazendo para tirar
uma foto do prato antes de começar a comer.
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